O entretenimento da Dor

A dor é entretenimento e isso não é novo.

Olhemos para tempos longínquos.
Na história já enforcamos pessoas, chibateamos pessoas, queimamos bruxas, apedrejamos prostitutas... Tudo isso em praça pública. Pra que? Servir de exemplo? Também. Porém muitos estavam ali apenas pelo entretenimento de ver alguém sofrendo. Ou vocês realmente acreditavam que todos estavam ali apenas pelo exemplo? Eu duvido muito. E se vocês pensarem um pouco a respeito também vão ver dessa forma.
Olhemos a história. O público do coliseu ao ver o enfrentamento entre um ser humano e leões. Rodeios onde o touro sofre, mas o público adora ver o vaqueiro no chão. Touradas na Espanha, onde, a crueldade com o animal é festejada, porém, quando o touro acerta um humano, vira vídeo de entretenimento, as famigeradas vídeo cassetadas.

Hoje, esse entretenimento ainda tem público, porém é "piada velha". Já a algum tempo o entretenimento e motivado pela dor sentimental, emocional e espiritual. Afinal, o que é o Bullying? Bullying é um termo da língua inglesa (bully = “valentão”) que se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa sem ter a possibilidade ou capacidade de se defender, sendo realizadas dentro de uma relação desigual de forças ou poder.  Entretenimento estimulado pelo sofrimento alheio.

Olhe a TV. Stand-up. Alguém em cima do palco falando da vida, explorando ao máximo todo sofrimento, inclusive próprio. Conte-me 10 piadas engraçadas onde não há vítimas. Ofender sempre foi engraçado. Nem que seja se ofender. Afinal, sempre foi entretenimento falar que eu sou brocha ou que alguém é brocha. Não importa quem. Tornou engraçado a dificuldade ou a vergonha de alguém, é entretenimento.
Olhe os seriados de tv. Seriados humorísticos. Two and a half man é a história de um bêbado com sorte financeira que emocionalmente abalado come quem puder. Seu irmão é um bom quiroprático, divorciado, tem a vida sentimental conturbada, ele se confronta diante de suas posições éticas e morais ao olhar pro seu irmão e ver que a vida é uma ninfeta sádica que em nada tem ordem, nem orientação alguma. Friends, Ross e Rachel... Idas e vindas. Olhe para o Chaves, inocente Chaves, sem palavrões ou erotismo, entretendo o público com o casal Dona Florinda e Girafales, eles brigaram, lembram-se? A Dona Clotilde e sua paixão pelo Madruga. Que por sua vez suspirava pela vizinha. A filha dessa vizinha, a Paty, tonteava o Chaves que por isso nunca olhou pra Chiquinha como ela o olhava em alguns momentos. Cavaleiros do Zodíaco. O casal que nunca chegou a ser exatamente um casal, Seiya e Saori, enquanto Shina, martirizava-se pelo peso do sentimento utópico. Eu a Patroa e as Crianças. Ok, o casamento teve seus abalos, mas seguia. Mas o entretenimento ficava no enfrentamento da relação pai-filho, mãe-filha, A relação do Michael com do filho, com os pais. Jay com o problema com os filhos, com a irmã de Michael... Como disse, não importa quem é a vítima, há o sofrimento, há alguém pra tornar engraçado.

Talvez por isso as pessoas tenham esse vício.
Muitos querem ouvir seus problemas, poucos são aqueles que o querem por simplesmente querer te ajudar. Alguns querem seus segredos como forma de poder, conhecimento é poder. Quem sabe seus segredos, tem o controle, comumente. Outros buscam saber apenas para invadir. Entrar em algum lugar, geralmente é mais fácil pela porta/janela mais aberta. Sofrimento, é uma porta aberta no coração. Se não cuidar, alguém entra por ali e pode causar uma perda sem precedentes. Mas algumas outras ouvem apenas por diversão. Apenas pra ouvir e rir, mesmo que internamente. O sofrimento, para algumas pessoas é divertido. A pessoa conta sua história, sua dor, alguém ouve, ri, e diz: "Bem feito, não devia ter feito.". Entretenimento, puro e simples. A dor que alegra o próximo. Não é raro humoristas com depressão. Robin Williams, se suicidou.

Brincar com a dor e tristeza alheia não é novidade. Porém, suas consequências são imensuráveis. Olhe pro lado, veja a sociedade. Vivemos de aparência, sorrimos pra fotos, só pra mostrar pros outros que sorrimos, mera ilusão, mostramos coisas que não somos, só para nos proteger, afinal, o outro pode não saber como lidar com a nossa dor. Mas apenas durante a noite, sozinhos, sabemos o que nos entristece e faz doer, em muitos casos adoecer e em alguns desses casos, morrer.

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