Perdi o meu castelo...
Um ano atrás, fui acometido de uma coragem até então escamoteada no cerne do meu eu, não é segredo ou mistério que 'coragem' nunca foi uma força, uma característica deste ser que, humildemente, destila a esmo palavras objetivando nada além de uma catarse, um método de exteriorização ou externalização do sentir. Todavia, ainda que rara, não é exatamente algo inesperado. Até o bicho mais inofensivo, quando acuado, reage, agride. E não há guerreiro nesse reino que, num momento de extrema acuação não tenha aberto seu chakra, expandido seu cosmo e reagido. Essa afoiteza, essa valentia motivou-me à, mediante cenário irremediavelmente melancólico, mover-me e revidar. Sendo assim, pelas notas de mágoa tocadas pela arpa da vida durante a via-crúcis sombria que nos direciona até a morte, mexi-me. Saí do castelo, quebrei tudo e parti. Perdi o jogo. Perdi a sensatez. Perdi a lucidez. Perdi a minha sela e a minha espada. Perdi o meu castelo e minha princesa. Quase acreditei, quase acreditei. Tornei-me um ser estólido, um desenganado, um estorvo, um nada, ou ainda algo pior e menor.
Na desposse de um castelo e princesa, à vila, minha vila, que a quase 7 anos deixei em prol de um valor, de um amor, de um desejo e fantasia, em favor de um sonho, em meu favor, retornei. 7 anos é muito tempo. Vi-me desorientado, tudo estava em seu devido lugar, como a 7 anos, mas tudo me era irreconhecível, e irrefragavelmente doloroso. Minhas lágrimas pareciam inesgotáveis, como de fato se provou. Não discorro sobre ás lágrimas em seu estado líquido, mas sim, de lágrimas invisíveis, lágrimas que apenas se permitem sentir, como água e sal em ferimento, em cada corte uma dor particular, insistente e miseravelmente intensa. Neste momento, mostrei-me um ser inepto e desta forma amaldiçoei minha existência de modo que cheguei a cometer a estupidez de blasfemar contra Deus e cogitei, e por pouco não efetivei, a extinção da minha existência extirpando-me desse plano terreno. Um guerreiro magoado e por inteiro ódio. Não há amor próprio quando um guerreiro se odeia mais que odeia a qualquer outro. Um guerreiro que se corta na pele. A dor física é ínfima, insignificante. Por mais que desejasse, ou ainda, por mais que precisasse, esse ódio só era projetado e impresso exclusivamente para dentro de mim mesmo. Esse ciclo de reciclagem e reuso do ódio parece infinito. Viver tornou-se utópico. Sem nenhum sentimento de pertencimento, ponto fora da curva, tornei-me um grão de terra preta em punhado de areia branca, talvez, até, perceptível, porém insignificante.
Por sorte, ironia e até descuido do destino, alguns poucos, porém fiéis, deram-me força. Outros cujos quais não esperava apoio também espantosamente me apoiaram. Por último, não menos importante, outras, poucas também, pessoas adentraram de modo cirúrgico em minha vida de modo que não me permitiram o pior, Todos eles tem, ainda, me suportado desde então e se hoje ainda estou de pé, preciso agradecê-los e o faço sem nenhum constrangimento.
Com eles sigo em minha vila. Aqui, trancado no meu calabouço de ideias, todos os dias, penso inúmeras insanidades. Meu superego de algum modo está mais deficiente. As ideias que se apresentam à mim são desesperadoras e mortais.
Com eles sigo em minha vila. Aqui, trancado no meu calabouço de ideias, todos os dias, penso inúmeras insanidades. Meu superego de algum modo está mais deficiente. As ideias que se apresentam à mim são desesperadoras e mortais.
365 dias e contando... Todos os dias a vida me prova que mesmo que a dor seja intensa, inesquecível, é ainda necessária. Um guerreiro mais forte, com mais XP, níveis acima, adquiriu técnicas novas, tudo isso no very hard, sem cheats, códigos ou subterfúgios, tudo adquirido no braço, batalha após batalha. Definitivamente, continuar no castelo teria sido um erro. Mas definitivamente também não imaginava sequer, que fora do castelo enfrentaria tantas batalhas. A pior batalha é a interna. No EU x EU não há vencedor, só perdedores.
No castelo ficou a princesa. Também ficaram alguns cavaleiros e uma dezena de centenas de amazonas, onde, algumas dessas amazonas são mais cavaleiros que alguns dos cavaleiros que lá ficaram. No castelo parecemos estar em outra dimensão, parece que entramos num vórtice tridimensional, algumas coisas perdem sentido e pouca coisa se define. Tudo muda o tempo todo. Um ambiente pesado, carregado e cansativo. Lá, anjos e demônios brigam insistentemente pela alma de cada um. Cavaleiros, amazonas, bruxas, dragões, sacerdotes, príncipes e a princesa, todos, o tempo todo, tinham suas almas apostadas numa guerra travada invisivelmente. Anjos e demônios duelando pela alma de cada um. Nesse poker espiritual, todas as mãos eram all in. Nessa guerra, que não é fria, todos saem sujos de sangue.
Diariamente mais convicto eu fico de que a princesa que por lá deixei não é mais a princesa por quem me apaixonei. A mesma foi alterando sua cerne conforme ia se alimentando-se das maças douradas e podres. Desta forma foi enfeitiçada. Nesse momento minha princesa confundia-se dentre as bruxas, dragões e demônios. Nesse momento, minha princesa não existia mais, não era mais princesa, não era mais minha. Seu brilho torna-se extinto, seu sorriso triste, seu olhar não conta mais história, não brota o fruto e nem a flor. Muito disso por culpa minha. Não tive coragem para enfrentar o que me afrontava e com medo do fim, deixei por conta do destino prover a fruta que mais desejar. Acreditava eu em justiça, mas por infantilidade, inexperiência, esqueci-me de que não há justiça numa batalha onde um não luta. Com medo do fim, houve uma batalha injusta onde cada um levantou uma bandeira cujas definições eram diametralmente opostas. Só eu não enxergava que tudo era mais do mesmo. Que o fim já estava assinado e consumado como de fato mostrou-se. Quase acreditei na sua promessa. E o que vejo é fome e destruição. Quase acreditei que conseguiria vencer. Quase acreditei que um dia essa maldição seria quebrada, que a nuvem turva dissipar-se-ia e que finalmente minha princesa retornaria para os meu braços. Hoje isso é apenas faz de conta.
A cada memória, a cada descoberta, mais uma flechada. Assim tem sido os dias. Dor ininterrupta. Meu escudo não tem mais espaço pra qualquer flechada. Tudo é tão natural que nem mais me defendo. Não há necessidade. A dor tornou-se companheira de modo que essa anátema perdura durante os dias. Na armadura, em cada ferimento, toda dor, parece levar a sua assinatura. Você despedaça meu coração (...) Eu chorei por você, minhas lágrimas virando sangue(...) Você diz que eu levo isso muito a sério, e tudo que eu peço é compreensão. Falhei.
A dor é um alucinógeno poderoso e intenso. Por vezes senti vontade de concentrar e projetar todo esse ódio na minha espada, algo que por muito pouco não efetivei, vingar-me por toda dor, cortar na carne, mesmo que não viesse a gritar vitória, deixaria minha marca na história e todos lembrariam-se de meu nome, que em prol da honra abdicou de tudo. Tive vontade de retornar ao castelo, numa viagem de honra com destino selado e suicida, tal qual um soldado kamikaze de qualquer país extremista, abreviar não só o meu, todavia também abreviar o existir de todos aqueles que de fato colocaram-se de pé contra mim e desta forma providenciaram e meticulosamente arquitetaram todos os projetos responsáveis pela minha queda. Desmascarar todos os impostores, implodir o castelo e enterrar a todos nós sob os escombros do castelo. Final lindo e épico. Porém, isso tudo me flutua em pensamentos de modo abstrato. Mesmo estólido, desesperado e inepto, ainda possuo um pouco de sensatez, pois de fato, na prática, de nada me adiantaria abreviar o existir de um número finito de pessoas. Ainda bem, mais pra eles do que pra mim, por enquanto, um dia eu vou esquecer seu nome e um doce dia você vai se afogar na minha dor perdida.
A princesa tirou-me tudo que tinha de bom. Ofendeu-me. Tirou minha esperança, meu amor, minha vontade de viver. Fez-me olhar todos os dias pro espelho e chorar. O sol parece não aquecer (← metáfora detected: ta calor pra caralho) e o frio parece eterno. No Asgard do meu corpo, no palácio Valhala do meu coração, todos os dias é travada a batalha dos deuses. Numa guerra entre vários, eu fico no centro. Parece que ganha quem bate mais, quem imprime mais dor, quem extirpa mais sangue, quem proporciona maior sofrimento, mas sou eu sempre quem apanha, de todos, e todos batem muito forte. Por vez ou outra tento revidar, mas como não tenho força, cansado, sou facilmente anulado. Como castigo pela minha rebeldia, mais uma surra.
Nunca em meus pesadelos mais intensos, imaginei-me sobrevivendo desta maneira tão penosa, tão indigna talvez, tão melancólica. Eu, que sempre cometendo erros, fui um guerreiro que travei batalhas inimagináveis. Batalhei batalhas onde nenhum guerreiro ousaria tentar. Batalhei em lugares escuros, barulhentos, infernais, lascivos, submersos no enxofre da luxúria... Sozinho venci dragões. Resgatei e protegi minha princesa dos mais diversos perigos. Batalhei sozinho contra uma legião de demônios. Batalhei com sinceridade e honra. Contudo, infelizmente, estagnamos num momento onde a princesa preferiu a lascividade dos calabouços da vida, preferiu a agitação, falsamente deslumbrou-se, deixou-se levar no voo dos dragões e no poder dos demônios. Por mais força que eu fizesse e/ou tivesse. Por mais poder que eu buscasse. Por mais afiada que a minha espada tivesse. Por mais que eu invocasse raios, relâmpagos e trovões. Por mais que tudo, não pude salvar minha princesa simplesmente porque ela não quis. Ela decidiu por qual estrada seguir. A estrada que ela escolheu não condizia com a estrada que eu queria seguir. Um guerreiro honrado como eu não pudia mais, naquele momento, e mais uma vez, ceder aos desejos da princesa e por fim, parti, para minha estrada. Precisei voltar 7 anos no tabuleiro da vida, começar do zero, no entanto, esse guerreiro não tem mais a força de um menino nem a valentia que o moveu para o mundo a 7 anos. Não tenho mais força, ao menos por enquanto, para empunhar o escudo, a armadura e a espada. Para andar nesse tabuleiro preciso abrir mão da espada ou do escudo, os dois são pesados demais. Além do mais, o dado d6 não me satisfaz mais. Não posso perder mais tempo pulando de no máximo 6 em 6. Posso usar um d20, ou d100, mas a falta de coragem me mantém imóvel. Pular 100 casas pode ser tudo o que preciso, porém pode ser um pulo mais que fatal, principalmente por não ter como carregar a espada e o escudo nesse pulo. Ou eu me defendo, ou ataco. Como não decido, fico parado, em cima do meridiano de Greenwich, não recuo negativamente, nem avanço positivamente. Imóvel, tal qual uma montanha, sofro com o vento, com a chuva, com o calor, sofro erosão, mas ali permaneço, imóvel.
Eu errei. Errei muito, muito mesmo. Como guerreiro inexperiente e incapaz, de forma afoita, irresponsável e diametralmente oposta ao medo do fim supracitado, em sacrifício de tolo fui além do que podia e precisava. Caso não fosse tão estólido, deveria ter largado o campo de batalha a muito tempo, a muitos anos. Contra tudo e todos batalhei de modo irresponsável e inconsequente até esgotar todas as minhas forças. Se tivesse voltado antes, teria a juventude ao meu favor, seria um guerreiro mais forte e jovial, teria disposição e meios para começar de novo. Não que eu não vá começar de novo, não obstante, caso fosse um guerreiro mais jovem e forte, não precisaria escolher entre carregar a espada ou o escudo, levaria ambos. Sou um guerreiro honrado, porém cauteloso e escaldado, tenho medo de água fria, de todas as vezes que me atrevi a pensar com a coragem de um verdadeiro guerreiro, essa foi a vez cuja qual mais me equivoquei. Quase morri, literal e metaforicamente falando. Talvez, por mais que eu seja um guerreiro honrado, meu dom é para ser o bobo da corte. Hoje, bruxas e dragões me assustam.
Não me arrependo. Acho que devido a isso me sinto honrado. O que não mata fortalece e ensina, porém cansa, e muito. De fato, se eu pudesse, voltaria no tempo e colapsaria de forma diferente. É uníssono que estendi uma guerra sem vitoriosos equivocadamente. Não voltaria apenas 7 anos, mas talvez 10, 12 anos pelo menos. Se pudesse, formataria meu disco rígido, ou ainda, caso fosse possível, jogava fora esse HD e num novo, recém desembalado, instalaria o sistema operacional do zero. Caso possível, gostaria de andar por outro tabuleiro. Mas afinal, quem não tem algo que gostaria de mudar na sua história? Com toda certeza, gostaria de ter chego aos 27 com muito menos dragões e batalhas pelo caminho.
Eu queria querer. (ok, ficou confuso). Eu queria querer, conseguir desejar (ok, continua confuso), conseguir ao menos imaginar, vislumbrar, sonhar com a minha espada separando seu corpo da sua cabeça. Queria muito conseguir odiar, não a mim, mas a todos aqueles que de algum modo me feriram. Mas sou incapaz. Todo esse ódio fica "a salvo" por debaixo dessa armadura cansada e destroçada das inúmeras batalhas. É o mais sensato, concordo. Todavia, é desesperador e cansativo. No copo está uma água imunda de ódio. Não consigo jogar essa água fora. Precisarei filtrar dezenas de centenas de vezes essa água até deixá-la cristalina para que outra princesa destroce com a porra toda de novo, ops, para descontaminá-la, para que eu recomece. Estou cansado, desanimado, desmotivado, mas ainda sou um guerreiro, ainda não morri. Mesmo cansado irei, se for pra morrer, morrerei honrado, morrerei lutando.
Durante esse ano esse guerreiro mudou bastante. O que aprendi nesse ano é de grande valor. Todavia tenho a impressão de ter envelhecido demais. Um guerreiro cansado, desmotivado, com a cabeça idosa.
A principal mudança foi que eu parei de beber. Esse guerreiro ao sair do castelo, perdendo a lucidez, cometeu muitos erros. Parar de beber foi fundamental para que eu estivesse aqui, escrevendo esse texto. Eu que sempre bebi porque gostava, havia mudado minhas motivações, de modo que, dessa vez, estava bebendo muito mais, não porque queria, mas sim porque queria abreviar minha existência, e sóbrio, não tinha coragem. Sinto muita falta da bebida. Sinto-me até menos homem por não estar bebendo. Cerveja sem álcool e suco de uva são muito bons, mas por vezes, sinto que precisaria ter bebido algo alcoolizado. Isso é estranho e triste. Mas de certa maneira, tem me feito bem. Só que aumentou minha insônia, pois, dormir depois de umas brejas é muito mais fácil. Até hoje, durmo mal, por vezes, a princesa apavora meu dormir. É desesperador. É inquietante.
É tão difícil concluir uma narrativa tão sincera. Queria poder dizer tanta coisae não ser preso. No fundo, por mais que eu não esteja do jeito que eu gostaria, ainda estou melhor do que imaginei que estaria. Como supracitado, mesmo cansado, desmotivado, desanimado, de certa forma inepto e estólido (gostei do estólido), ainda estou vivo e preciso reaprender a viver. "Sei, que o dia raiou para mim. Mas para você tanto fez. Sei que não vou mudar, sou assim. Para você sou mais um. Ah! To aprendendo a viver sem você..."
É tão difícil concluir uma narrativa tão sincera. Queria poder dizer tanta coisa
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